terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

3º Dia – Corrientes a Santiago del Estero (625km percorridos)

Hoje acordei cedo e bastante disposto a enfrentar o calor. Sabia que a jornada seria árdua, sob temperaturas iguais a de ontem, sem nenhuma nuvem para amenizar os raios do sol e pouco água para refrescar.

 Apesar dessa parte da viagem ser considerada entediante por muitos, o tempo passou rápido e consegui algumas boas lembraças paisagísticas, culturais, sonoras e olfativas.


É impressionante como, mesmo dentro de um mesmo país , nota-se claramente uma diferença de atitude dos povos das diferentes províncias. Hoje comecei  a me sentir bem vindo aqui na Argentina. Acho que as pessoas se solidarizam com um motociclista sozinho em uma aventura como essa.

Sete em meia da manhã já estava devidamente alimentado e pronto para ´picar a mula´. Devidamente em partes, porque o café do hotel Orly é bem fraquinho. Faltam frutas, frios e as diversidades que encontramos em qualquer pousadinha simples no Brasil. Nós brasileiros prezamos por uma boa alimentação e sentimos falta desse luxo quando saímos do país.


Depois de ter vivenciado o luxoso do Hotel Luzeiros, em São Luís e o DPNY, em Ilhabela, me tornei chato e exigente em excesso. Preciso voltar para a realidade!

Bom, chega de papo furado e vamos a história....

Dei uma checada na motoca, preparei algums peticos (barras de cereais) para deixar na mala tanque e fiz alguns ajustes na bagagem. Terceiro dia e já notei que estou bem mais safo. Sei onde cada coisa está e, com poucos minutos, consigo analisar o todo sem derrubar ou esquecer nada.
No estacionamento do Hotel Orly

Deixando o estacionamento do hotel, passei em um posto Shell para  abastecer a motoca. Aproveitei e completei o galão com 18 litros. Haja elástico para prender tanto peso. O pior é que segundo a norma na Argentina, o galão só pode ser completado quando colocado no chão. 

Sai do posto e ´enrolei o cabo´....

A saida de Corrientes passa por uma ponte um tanto sofisticada para o padrão da cidade. Digamos que é aquele tipo de obra que não se encaixa no ambiente. Provavelmente , algum político demagogo querendo impressionar a população para conseguir votos com gastos que aparecem, porém com coisas menos prioritárias.
Ponte de saída da cidade de Corrientes

O percurso hoje foi majoritariamente pela RN 16. Ela  é um pouco diferente da RN 12, principalmente no tipo de alfalto, que aparentou ser mais duro e com mais granito. Grande parte de seu percurso é  plano e sem muitas curvas. Um desastre para  os motoristas mais sonolentos. De moto, é claro, não há como dormir. Muito pelo contrário. Constantemente, ocorrem  rajadas de vento dando acordando qualquer cidadão, além é claro, de algumas cabras que ficam pastando quase no meio da pista.




Tem também os pássaros que cruzam a pista aos montes dando vôos razantes. É importantte ficar esperto para não atropelar algum. Já ouvi histórias de verdadeiras chacinas nas estradas.  Como sou filiado à sociedade protetora dos animais, tomei cuidado e não precisei assassinar nenhum pobre coitado. (rs)

Para não dizer que não encontrei ninguém no dia de hj, após algumas paradas me deparei com um mineiro, solitário como eu, retornando de San Pedro de Atacama. Estava em uma BMW 650 Dakar, todo enlameado. Disse que ficou emocionado com a viagem, principalmente o paso san francisco. 

Além do mais deu uma dica para evitar o calor do percurso de ontem, o qual terei que enfrentar ,inevitavelmente, na volta. Aconselhou-me a dar um pulinhos nas represas que  pelo caminho. Muitos motoristas fazem isso, segundo ele. A conferir.

Algumas fotos do percurso...

Pedágios. São gratuítos para motos.
Pit Stop na cidade de Saenz Peña
Reta sem fim...
Cidade de Corzuela, no caminho a Santiago del Estero
Parada em Quimili. Aproveitei para comer papas fritas.
Solitário na Estrada..


Cerca de 100 km de Santiago del Estero fiz o meu primeiro teste de habilidade em projeto de rípio. Um trecho de cerca de 30km da RN 89 possui uma só pista para ambos os sentidos. Nas laterais, uma pistinha de rípio batido. Aproveitei para brincar um pouco. A moto ficou toda empoeirada.



Chegando em Santiago del Estero, hoje mais cedo do que o planejado (16:00), eis que encontro um motociclista de BM andando pela cidade. Parei no posto para abastecer e ele veio conversar. Super simpático o cidadão, que depois nas trocas de cartões descobri ser um arquiteto local. Deu algumas dicas nos caminhos a percorrer e me trouxe  até o Hotel Casino Carlos V, o melhor da cidade segundo ele.





Chegando ao hotel, fui direto procurar algo para comer. Problema: Aqui no interior da Argentina, ao contrário de Buenos Aires, a ciesta é rigorasamente respeitada. Até aqui no restaurante do hotel, por incrível que pareça. Todos estabelecimentos comerciais e restaurantes da cidade fecham às 15:00hs e reabrem às 18:00.

Como nada estava aberto, aproveitei para dar uma banda na cidade e aguardar até às 18. Muito limpa e organizada, com edifícios tipicamente espanhóis. Aparentemente é a cidade mais antiga da Argentina, tanto que é popularmente chamada de ´Madre de Ciudades´. Me chamou muito a atenção a quantidade de idosos pelas ruas.



Falando neles, às 18:00 quando o comércio começou a abrir, entrei no primeiro restaurante mais sofisticado que vi pela frente. Como estava em busca de uma boa salada, não poderia entrar em um fast food qualquer ,ou uma boca de lixo ,me oferencendo Pollo com sabe-se lá o que.

Ao sentar-me à mesa, percebi que estava no elegantíssimo Joquei Clube de Santiago del Estero. Nas mesas ao redor a soma das idades dos poucos presentes provavelmente era a minha, elevada a 10. Senhores de cerca de 70 anos batiam papo e fumavam charuto ao som de, nada mais nada menos que ...... Michel Teló!! Isso mesmo!! 
Essa música é febre aqui na Argentina. Ontem em corrientes tocava em tudo quanto é lugar. E olha que não é só o dito cujo. Para o desespero desse faminto motociclista, logo após Michél Teló iniciou-se uma apresentação da agradabilíssima dupla, Joao Bosco e Vinícius, música que após pesquisa na net descobri ser ´Chora me Liga´.

Bom, na falta da salada me fizeram um belo de um sanduba:





Amanhã inicio os percurso pelos Andes. Saio de Santiago del Estero até o pavoado de Purmamarca. Esse sim é um fim de mundo!!


Por fim, meu Spot está funcionando. Na verdade, nunca deixou de funcionar. O problema é que não pode ficar dentro da mala tanque pois não capta o sinal do satélite.  Para verificar minha localidade é só entrar em:


http://share.findmespot.com/shared/faces/viewspots.jsp?glId=0IWbAxM7CGq4ue0KJLxQEX28utcbW4nNN

Estou agora em Santiago del Estero.O ponto 1 foi quando dei o Ok no aparelho.


Abs!

Hotel em que me hospedei: Carlos V
Opiniao: Bom 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

 2o dia – Foz do Iguaçu - Corrientes - Meu Deus do céu,  que calor!!!! (630km)
Hoje acordei por volta das 8hs com um céu mega-ultra nublado em Foz. Dei uma olhada no weather.com e vi que a previsão indicava chuva no caminho à Posadas. Olha, sinceramente não sei quem são os indivíduos e quais são os modelos preditivos utilizados. Só sei que erraram feito!!Nunca passei tanto calor na minha vida e não vi uma única gota d´água cair do céu. Acho que erraram de chuva no site. Na verdade era uma chuva de otários que entram no site e acreditam na previsão. Sério.Acho que a temperatura na estrada até Corrientes  excedeu os 38graus. Depois, conversando com um funcionário do hotel fiquei sabendo que nunca chove nessa região durante o dia . Deveriam prender os weather forecasters do weather.com.

Bom, vamos ao dia....

Desci rápido, tomei um café ultra reforçado e parti rumo à ponte da amizade. Nas aduanas tudo tranquilo e sem problemas. Só um carimbinho básico no passaporte e o recebimento de boas vindas de uma oficial Argentina super simpática.



Veja o estado das placas na aduana Argentina. Mal dava para ler de tão despotadas
Ponte da Amizada. Notem as cores da bandeira do Brasil e Argentina

Na primeira blitz policial, ao contrário das histórias de extorsão que haviam me  comentado inúmeras vezes, os policiais me deixaram passar tranquilamente. Acho que hoje estavam de bom humor.
A estrada que percorre a vegetação ciliar do Rio Paraná é bastante agradável e com algumas boas paisagens para fotos. E o clima, apesar de quente, estava razoavelmente agradável. Mal sabia o que me esperava.

Quanto ao paisagismo da viagem, ele se resumiu à esse pequeno trecho pois adiante me confrontaria com a estrada mais entediante já vista na face da terra.



 Após os tradicionais 250 km rodados, a BM clamou por uma parada. E eu também , é claro. Após 3 hrs na motoca, não há Cristo que aguente.

Fiz meu pit stop em um posto Esso perto de Posadas, e lá encontrei três senhores extremamente simpáticos e corajosos. Estavam vindo de Pato Branco- PR, também  com destino à San Pedro de Atacama. Dois deles pilotavam  Suzukis 650  e ou outro, esse sim mais corajoso ainda, estava em uma Falcon 400 ´fully loaded´. Que sofrimento, meu Deus do céu!  Segundo eles, não podiam passar dos 110km/h por conta do amigo e este último reclamava que o escapamento estava fazendo um barulho estranho.  Ainda bem que já é a terceira viagem deles à San Pedro. Tinham bastante experiência com viagens e pareciam ser extremamente prudentes e ponderados. 

Peguei algumas dicas, recebi um convite para integrar o moto clube deles e rumei à Corrientes. Espero que ainda os encontre pela viagem. São muito gente fina!

A estrada para corrientes é a mesma (RN 12) que liga Foz à Posadas. Entretanto, todavia, contudo.. é a parte Afeganistão da estrada. Que paisagem sem graça e que estradinha entediante! Foram mais de 4 hrs andando sob um sol escaldante de mais de 38graus, em uma reta sem fim. Esse trecho deveria ser abolido da viagem à São Pedro.

Não via a hora de chegar à Corrientes. Por conta disso,  devo ter andado em uma média de 140km/h. A bichinha bebeu mais que o Adriano do Corinthians. Isso, claro, trouxe consequências.




Pois bem, foi a primeira vez que a motoca não teve autonomia suficiente para chegar ao próximo posto. Eis que, faltando 20 e poucos km de autonomia, parei para fazer o primeiro teste do galão.
Como toda primeira vez sempre tem uma lambança, dessa vez não foi diferente. Dos 10 litros que tinha no galão, derrubei, pelo menos uns 500ml de gasolina no tanque. Mas devo dizer que não foi culpa minha e sim do vento que batia no funil fazendo com que um pouco da gasolina espirrasse no tanque.
Ah...por falar em funil.....ainda bem que meu pai aconselhou-me a trazer o dito cujo. Muito mais prático que a mangueirinha. É botar a bagaça no tanque e pau na máquina. Bem prático. Aconselho a todos marinheiros de primeira viagem.





Após a via sacra, finalmente cheguei a Corrientes. Essa cidade é um verdadeiro forno. Agora pouco, saí para dar uma banda no centro e parecia que estava em em um forno de pizza. É, definitivamente, o mais intenso que já experimentei. Agora estou aqui no quarto em baixo de um ar condicionando na potência máxima.

No caminho de hoje vi um porção de aventureiros motociclistas voltando de San Pedro. E olha que foram vários. Engraçado que todos vinham em bando ou em casal. Até o momento,  sou o único solista nessa viagem. Espero que sirva de inspiração.

Amanhã rumo à Santiago del Estero. Espero que a estrada tenha paisagens mais agradáveis porque o calor acredito que não deva mudar muito.




Abs!

Hotel em que me hospedei: Orly
Opinião: Ruim 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

1o Dia - São Paulo - Foz do Iguaçu - Hoje foi o grande dia...The challenge has begun!!! (1100 km)

Agora são cerca de 23:32 e cá estou eu nos aposentos do 9o andar do Golden Tulip Hotel da organizadíssima cidade de Foz do Iguaçu. 

Como previsto, e sem muita lamentação, encontro-me em estado deplorável. Absolutamente demolido ,com o joelho direito dolorido e o corpo bem cansado. Nessas horas que agradeço os dias de corrida  que tanto fortaleceram minha pernas pois  após mais de 1.100km de uma só vez, não fossem os exercícios tenho certeza que estaria mais dolorido ainda.  

O dia começou maravilhoso. Céu limpo, sol agradável e temperatura amena. Tudo já estava preparadíssimo: malas empacotadas, ferramentas devidamente acomodadas nas malas laterais, comida no baú traseiro e todos ´bits and pieces´ necessários para uma longa viagem de moto.

BM equipada
Galão


Acordei as 7:00, tomei um bom café da manhã e sem muita enrolação parti rumo ao BR JK para encontrar o Veiga, que estaria me esperando lá às 8:00. Como sei que durante a viagem vou ter momentos de fome aproveitei e reforcei o café com um delicioso pãozinho na chapa. Digamos que esse pãozinho fez a diferença útil pois fui almoçar quase 6 horas depois.

A viagem com o Veiga foi breve, infelizmente. Percorremos 100 km do percurso até Sorocaba testando o recém adquirido Scala Rider. A conversa via radio digital estava tão agradável que o tempo passou rapidinho. 

Esse aí sou eu!!

Mr Veiga, amigo de motoca...


Para mim, entretanto, os 100km representavam somente 10% da viagem do dia e teria que continuar a empreitada solo. Quando paramos para que ele regressasse imaginei que desistiria de chegar em Foz no dia hoje. Havia até contingenciado um plano de dormir em Campo Mourão, cidade a 400 km de Foz onde sabe-se lá o que tem pra fazer.

Como a BM está beberrona, após mais 150 km, parei em posto para a primeiro pit stop de abastecimento. Eis que a primeira bisonhice da viagem aconteceu:

 Ao tirar a mala tanque para que o frentista tivesse acesso ao bocal, coloquei a mesma acima de uma das malas laterais. Após os trâmites de pagamento,  fiz uma rápida conferência nos detalhes e parti sem pestanejar. Levantando poeira.... Eis que, 3 km depois, olho para o tanque da moto e: What a fuck!!cadê a mala tanque?? Desesperado, voltei na contramão do acostamento. Sabia que dentro dessa mala estavam absolutamente todos os documentos, câmeras e coisas importantes para viagem. Basicamente: Sem a porcaria da mala tanque, não haveria mais viagem!!!
Parei a moto e desci rapidinho para falar com o frentista: “Hey dude, sabe onde tá a mala tanque?”

Não sei se isso só ocorre comigo mas nesses momentos, imediatamente, começo a desconfiar de todo mundo ao redor. Ao invés de parar e  pensar no mais óbvio, já entro em estágio de elocubração de todos os possíveis delitos do código penal.
Os frentistas olharam com cara de : Why the fuck shall we know? Se você fez asneira não venha querer que a gente dê a solução..

Enfim...em um momento highlander, olhei para baixo e a dita cuja estava exatamente onde a havia deixado. Acima da mala lateral..mas aí veio a pergunta:  como essa porcaria não caiu na estrada? Sei lá meu, o que importa é que a mala tanque está sã e salva...

Bom, já estou ficando um pouco cansado...o resto da viagem resumiu-se em: Chuva, sol, chuva, sol e .....chuva e sol....
Ah.. Teve um outro probleminha que quase fez com  que os telefones da Porto Seguro tocassem ...Fique a 10km de uma pane seca geral...Depois do término da castelinho, logo após cruzar a fronteira com o Paraná, foi duro de achar um posto..A rodovia PR sei lá o número, tem pouquíssimo postos..Para os futuros navegantes ta aí um ponto para tomar cuidado.

Após um almoço rápido contemplando cerca de 3 pratos de arroz com feijão em Cornélio Procópio, toquei adiante só parando para abastecer...Até chegar em Campo Mourão as paisagens são bem sem graças. Cidades feias e , aparentemente, pobres. Sem contar o dilúvio que tive que enfrentar logo após Londrina. Parecia que tinha alguém lá no céu jogando baldes de água na minha cara. Fique ensopado. Pelo menos refrescou um pouco.




No caminho de Campo Mourão –PR até Foz o trajeto é bem agradável. As paisagens são muito bonitas e impressiona a diferença de verdes nas plantações. Só achei lamentável os trocentos caminhões de porcos sendo transportados para a abate. Trite.
Cheguei aqui por volta das 21:00, após mais de 12 hs pilotando a BM. Foi menos tenso e entediante do que imaginava. É impressionante como você reflete sobre diversas coisas quando está em uma moto. Até Francês eu tentei falar!!hehehe




Amanhã rumo à Corrientes em uma viagem bem menor, de cerca de 600km..Vou poder tirar mais fotos e, provavelmente, chegarei mais cedo ao hotel podendo postar as fotos de hoje.

Cheers!!!


 Hotel em que me hospedei: Golden Tulip