sexta-feira, 9 de março de 2012

12º Dia – Foz do Iguaçu – São Paulo (1070 km) – Até que enfim cheguei!!! (08/03/2012)


Após 12 dias intensos de emoções, enfim cheguei à terra natal! Exatamente às 23:10 , após mais de 13 hrs de pilotagem com paradas somete para abastecimento e um pequeno intervalo para almoço, na fronteira com o Paraná.
 
A viagem foi a mais desgastante de todo o percurso. Além dos 1070 km de uma só vez, escolhi o pior dia da semana para voltar. 


Esta aí mais uma dica: Não retorne à São Paulo em dia de semana. Sua viagem vai ser pelo menos 10 x mais estressante.  
 
A BR 369, que cruza o estado do Paraná,  estava repleta de caminhões. Descobri porque é conhecida como rodovia dos acidentes. Não é tanto por conta da qualidade do asfalto, muito bom por sinal, mas sim pela falta de pontos de ultrapassagens que deixam qualquer motorista sem paciência. Além do mais, há muitos caminhões sem condições  na pista, os quais mantém velocidades bem abaixo da mínima exigida. (50% da máxima)

 
Cheguei ao Estado de São Paulo por volta das 18:30. Fato desanimador pois ainda tinha 400 km pela frente. Tá certo que a Castelo Branco não é nada ruim.
 

O problema são os caminhões. Eis eles novamente. A cerca de 100 km de São Paulo, a Castelo Branco começa a se tornar um estacionamento de jamantas. Nunca vi tanto caminhão na minha vida. Acredito que a nova proibição de tráfego nas marginais em determinados horários aumentou a circulação de caminhões as cercanias da capital, nos horários próximos às 22 hs.

Calor, caminhões e cansaço,esse é o fim de uma viagem inesquecível, a qual pode ser colocada como uma grande experiência de vida.
 
Gostaria de agradecer a todos que acompanharam o blog. Fiquei espantado com o número de visualizações diárias, assim como os e-mails que recebi, de amigos, familiares e pessoas que nem mesmo conhecia, mas que por algum motivo leram alguns dos posts.

 
Quanto ao fato de ter feito a viajem sozinho, é claro que como tudo na vida, há vantagens e desvantagens. A vantagem principal é o teste de sua capacidade de adaptação e planejamento. Além do mais, as pessoas pelo caminho se aproximam mais, o que torna a experiência ainda mais engrandecedora.

Viajar em grupo repele um pouco os estranhos. Isso torna a viagem mais restrita às experiências de dentro do grupo. É como se você levasse com você o seu meio social e as suas já consolidadas experiências, não abrindo espaço para intereções diversas.

 
Em contrapartida, viajar sozinho significa ter nenhum apoio nos momentos de dificuldade e, é claro, menos idéias de traçados, aventuras e as diversidades que emergem de um grupo.


 
Por fim, recomendo uma viagem solo, desde que seja muito bem planejada e procure sempre minimizar os riscos durante o percurso.

 
É importante também, estar muito bem equipado além de investir no preparo da moto. Os pequenos detalhes fazem a diferença nos eventos de estresse.

Por exemplo: Não tivesse eu instaldo os faróis auxiliares, teria tido problema nas viagens noturnas. Inclusive, ontem fui parado por um policial por estar com meu farol principal quebrado. Ao ver que havia os auxiliares, deixou-me seguir viagem. Enfim, cada investimento feito, é uma tranquilidade a mais.

Moto parada na garagem, assim que cheguei. Vejam o estado da coitada.
Recém chegado da maratona motociclística de 1070 km de Foz até São Paulo
 


Aqui vão alguns dados  sobre a viagem:

 
- Destino da Viagem –Oceano Pacífico
- Kilômetros percorridos – 8000 km
- Número de dias - 12
- Média km/dia – 666 km/dia
- Paradas para abastecimento – 35 vezes aproximadamente
- Litros de gasolina utilizados – 615 litros
- Cidades diferentes onde pernoitei – 9
- Cidades visitadas – inúmeras
- Cidade mais agradável – Tilcara (Argentina)
- Cidade menos agradável – Tinogasta (Chile) e Jujuy (Argentina)
- Cidades mais turísticas – San Pedro de Atacama (Chile) e Foz do Iguaçu
- Melhor hotel – La Alondra (Corrientes - Argentina)

- Segundo melhor hotel - Las Terrazas (Tilcara)
- Pior hotel – Don Raul (San Pedro de Atacama)
- Fato mais estressante – Mau atendimento na aduana do Paso de Jama
- Fatos mais agradáveis – perceber que nada tinha acontecido após a queda , e paisagem maravilhosa da Laguna verde;

- Fato inusitado - alemães anti-capitalistas, pilotando uma BMW, América Latina afora,
- Melhor paisagem – Laguna Verde
- Melhor estrada – Castelo Branco, apesar dos caminhões,
- Piores estradas – Rípio a caminho do Paso San Francisco e estradinha de 30 km entre Santiago del Estero e Corrientes.
- Acessórios da moto mais importantes – Farol auxiliar e Almofada Air Hawk
- Pior acessório da moto – Protetor de farol Roncar
- Melhor peça de vestimenta – Viseira de iridium escura. Protege o seu rosto dos raios solares, sendo muito melhor que óculos. Após minha queda, minha viseira riscou e passei a utilizar a incolor, com os óculos. É muito chato ter que tirar os óculos toda vez que tira o capacete. Mais uma coisa para se esquecer e perder.

 - Óleo – Não precisei completar
- Pneus – Calibrei somente 2 vezes

- Problemas naturais com a moto - haste do espelho soltou e tive que ajustar a pressão da embreagem hidráulica. Ambas coisas muito simples.
 
Perguntas e respostas:

 
- Vale a pena ir sozinho ? – Absolutamente. É bom estar bem preparado, com todos equipamentos necessários. Evite o Paso San Francisco se estiver sem pneu  off-road (metzeler karoo). Dá para arriscar sem esse pneu? Dá. Mas tome cuidado redobrado. Vá devagar.

 
- Posso ir com moto menor que a R 1200 GS? – Claro que pode. Na verdade, a melhor moto para quem é leve como eu,  é alguma em torno de 650 cc,  bem equipada é claro.

Os alemães que encontrei pelo caminho disseram que na Europa os aventureiros preferem a 650 cc por conta do peso e da autonomia (quase 470 km). A BMW R 1200 GS é um trator e não tem corrente, o que certamente a torna mais confiável. Entretanto, se sua corrente for nova, não será necessário tracá-la. É só lubrificá-la no dia a dia.
 
Não aconselho motos menores, pois há trechos na viagem que vai precisar andar a 120km/h durante muito tempo. 

 
Outro ponto: é importante que consiga instalar uma carenagem alta. Ela o protegerá dos mosquitos, pedras, chuva e pássaros que cruzem por sua frente. Inclusive, aconselho instalar o extensor de carenagem da touratech. Muito bom.

 
- Dá para fazer a viagem somente por estrada de asfalto? Dá. Porém vc irá perder o espetáculo da laguna verde. O trecho entre Corrientes e Santiago del Estero é inevitável, apesar de ser metade rípio, metade concreto.

 
- Preciso levar galão com gasolina extra? Precisa sim. Há trechos em que os postos de gasolina não terão a commodity para vendê-lo. Além do mais, não há posto de gasolina nos 500 km que levam ao Paso San Francisco. Ao menos que sua moto tenha autonomia de mais de 500 km, leve um galão.

 
- O que devo levar de roupa? O mínimo possível, de modo a evitar aumento de peso. Leve algumas camisetas dry fit e poucas roupas íntimas as quais vá lavando ao longo do percurso. Leve também um tênis, trajes de banho e uma bermuda para poder dar umas bandas pelas cidades. 

 
- Preciso ser extremamente aventureiro para fazer essa viagem? Não. Basta ser perseverante, corajoso e, acima de tudo,  não ser fresco. Sua roupa vai ficar imunda, suada e  vc vai passar um pouco de fome, de sede, vai sofrer frio e calor intensos.
Se quiser tornar a viagem mais  aventureira, leve uma barraca para acampar pelo caminho. Eu particularmente, fui adepto do luxo noturno. Procurei ficar nos melhores hotéis das cidades onde parei. Acho que vale a pena pois uma boa dormida lhe dá mais energia para pilotagens extremas.

 
- Preciso ter experiências com motos? – Sim. Inclusive é interessante ter um pouco de noção de mecânica básica e DIY (Do it yourself). Durante a viagem, você vai precisar fazer alguma coisa na moto. Pode ter certeza disso.

 
- O que posso ler antes de viajar? – Aconselho a pesquisar bastante pela internet, melhor fonte todas. Se for um entusiasta por leitura, pode comprar 2 livros, que recomendo: 

 
- Adventure riding techniques - http://www.amazon.com/Adventure-Riding-Techniques-Essential-Off-Road/dp/1844255727/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1331310431&sr=8-1

 
- Building the ultimate Adventure motorcycle - http://www.amazon.com/Building-Ultimate-Adventure-Motorcycle-Essential/dp/184425836X/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1331310514&sr=1-1

 
Vale a pena também assistir o documentário do Ewan McGregor – Long Way Round. Vai te dar um pouco mais de coragem para sair da inércia, além de ser muito interessante.

http://shop.longwayround.com/collections/dvds/products/long-way-round-intended-for-our-us-customers-all-region 
 
Qualquer outra dúvida, não hesite em me escrever. Meu email é leandrouk@gmail.com

 
Abs e até a próxima!!!
11º Dia – Corrientes – Foz do Iguaçu (650km) 07/03/2012


Foi o dia do calor intenso, como ocorrera no trecho de ida. Acredito que a temperatura devia exceder os 40 graus.


Como havia comentado, essa é a parte que deveria ser excluída do trajeto pois a estrada é entediante, não há pueblos interessantes pelo caminho e o calor é insuportável. Parei para me molhar umas 3 vezes.


Só como referência, parte do meu pulso ficou descoberta por conta da luva estar encolhida. Como consequência, tive uma queimadura que pode ser chamada de terceiro grau, dada a intensidade dos raios solares.


Nesse trecho deve-se tomar cuidado redobrado com o sol. O melhor mesmo é evitá-lo no verão.


Abaixo vídeo onde cruzo a fronteira, ingressando em solo ´verde e amarelo´:




abs! 

Hotel em que me hospedei: Golden Tulip
Opinião: Muito bom 

quarta-feira, 7 de março de 2012

10º Dia (Santiago del Estero – Corrientes) – 625 km – 06/03/2012


Acordei um pouco mais tarde pois após alguns dias intensos de pilotagem, o corpo começa a sentir o desgaste.

Fica a dica: Aos próximos viajantes, aconselho pelo menos 1 parada antes de retornar. O meu roteiro é um pouco agressivo na kilometragem diária, principalmente contando-se que a última perna será a ´maratona´ de 1070km. Um verdadeiro iron butt.

Voltando ao dia...


Após ter passado pelo pequeno trecho de estrada mesclada com rípio, eis que 2 motociclistas em duas BMWs 650 solicitam minha parada.






Não me lembro o nome dele, o dela se não me engano era Ute. Tratavam-se de 2 alemães de meia idade, viajando há quase 5 meses mundo afora. As motos vieram via  navio para a América do Sul, e portavam placas da Alemanha. 

Ficamos quase 1 hr papeando na beira da estrada. Perigo não havia, pois naquele fim de mundo passa 1 carro a cada 10 min, e olhe lá. Eles, contando da viagem, e eu comentando sobre a minha e um pouco sobre o Brasil.


Os dois tem uma enorme vontade de viajar pelo Brasil mas, infelizmente,  não receberam boas indicações sobre segurança nas estradas. Por incrível que pareça, irão percorrer toda América Latina, menos o nosso país. Passarão somente por Manaus, pois trata-se de uma rota necessária. 


Comentaram que fazia dias que não avistavam um motociclista, por isso me pararam de modo a papear um pouco. Todos brasileiros que encontraram pelo caminho, muitos por sinal, estavam sempre com pressa, segundo eles. Todos com datas apertadas e viagens de tempos curtíssimo, com  centenas de kms percorridos por dia. Pensei comigo mesmo: Acho que eles não perceberam que nós  brasileiros ao contrário deles não vivemos no Welfare State. Esse, por sinal, que por sinal está dando sinais de falência absoluta por benefícios excessivos aos seus cidadãos.
 

Economia e sociedades à parte, os dois estavam em uma verdadeira aventura. Têm como meta somente acampar, sem paradas em hotéis e lugares com infra-estrutura. Todos os dias andam no máximo  400km  procurando lugares agradáveis para montar as barracas e cozinhar uma comida diferente,  que sempre compram nos mercados locais. Já percorreram quase toda Argentina, do Ushuaia à Buenos Aires. Agora, seguem ao Chile pelo caminho que fiz.

Estão sem rumo, em busca de algo que nem mesmo eles sabem o que é. No fundo, acho que estão fugindo um pouco da crise, que deve estar deixando qualquer europeu de cabelos em pé. 


Principalmente os mais velhos, que podem ter que abrir mão de alguns de seus direitos adquiridos. Inclusive me perguntaram o que achava da crise, e se realmente ainda acreditava no futuro da sociedade capitalista. Eles já não mais acreditam.

Por um lado,  têm certa razão uma vez que  o modelo econômico que organiza nossa sociedade já vem mostrando há anos,  sinais de exaustão. Entretanto, a capacidade humana de adaptações é interminável, e uma saída será encontrada para o modelo atual, já fracassado na Europa. Além do mais, na periferia do mundo, estamos em franco crescimento. 


Após anos de estagnação, agora começamos a sentir um pouco da inclusão social que tantos planos econômicos tentaram trazer. Tá certo que está de forma desordenada e sem acompanhamento de educação devida,  mas é melhor que a pobreza absoluta de outrora.  

Me pergunto: Será que é justo todo esse debate na Europa, só agora que o sistema os afeta? E na década de 80, momento em que toda Europa vivia um oásis econômico, e nós , os então Terceiro Mundistas, tínhamos que engolir um receituário recessivo imposto pelas organizações multilaterais.


Essa é uma longa história....A conversa  me lembrou os tempos de Inglaterra, onde estava inserto em um ambiente de muitos críticos do nosso sistema. 


Detalhe: Os alemães são impressionantemente idênticos em termos de  comportamento. Tem sempre aquele ar professoral, com certo tom de arrogância e ironia nos contra-argumentos, o que na verdade não é um mal em si,  mas sim o jeito que tem de debater sobre um assunto. Tive um professor alemão que tinha o mesmo comportamento. Impressionante!


Ótimo papo, no final das contas. Espero que ambos tenham uma boa jornada pela frente e grandes experiências mundo afora.  Só lamentei o fato que o nosso país seja visto como antro de violência pelos motociclistas de fora. Tá aí um tese interessante a se perseguir: Pq o Brasil é tão mais violento que os outros países da América Latina?  Só a pobreza não explica...


Bom...No final do dia, fiz a minha parada em dos hotéis mais clássicos que já me hospedei. O hotel chama-se La Alondra e fica em uma avenida um tanto depreciada de Corrientes.


Ao chegar ao hotel achei algo estranho. O que um hotel com um ambiente tão requintado, clássico e de bom gosto, estaria fazendo em uma cidade como Corrientes? Seria lavagem de dinheiro? Mais uma vez, é uma daquelas coisas que não se encaixam no ambiente. Lembram da ponte de Corrientes? Será que não percebi algo  ´up market´por lá? 

Talvez eu esteja subestimando a capacidade turística e empreendedora da ´megalópole´Corrientes.

O hotel é um verdadeiro espetáculo. A comida que prepararam é daquelas meio frescas onde até o tomate é cortado em forma de alguma coisa.


Ótima dica de hospedagem.


Abs! 

Hotel em que me hospedei: La Alondra
Opinião: Excelente
9º Dia (Fiambalá – Santiago del Estero) – 553km – 05/03/2012

O dia intenso do Paso San Francisco, permeado por emoções de todo tipo, pode ser constrastado com o trecho morno entre Fiambalá e Santiago del Estero.

Acordei cedo, ainda com dúvida se deveria esperar um dia para partir, uma vez que minhas costelas estavam bastante doloridas da queda do dia anterior. Não me sentia muito confortável em fazer força com o braço esquerdo.


Tomei meu café da manhã no restaurante próximo ao Hotel da Municipalidade. Nada de especial. Na verdade, tanto o hotel quanto o café foram os mais simples de toda viagem. 


Fiambalá não é aquilo que podemos chamar de cidade. É um pueblo, com pouco ou nenhuma atratividade turística. Sendo assim, a cidade não tem infra-estrutura de hospedagem e o pouco que acontece por lá, são algumas festas ao longo do ano.


Resolvi dar uma arrumada na moto. Coloquei arames para reforçar o suporte do baú lateral e desentortei um pouco o suporte do GPS, o qual após a queda não permitia sua boa visualização.


Preparei as coisas e parti rumo à Santiago del Estero, percurso que seguindo por Tinogasta e outras cidadezinhas pequenas.


Percorri um total de 600 km, pois o GPS traçou um caminho meio português. Me fez descer até a cidade de Catamarca para depois subir novamente à Santiago. Acho que teve a intenção de evitar alguma rota não asfaltada.


Chegando à Santiago del Estero, resolvi me hospedar novamente no Hotel Casino Carlos V pois precisava de um pouco de conforto. 


Foto do dia:



Hotel em que me hospedei: Carlos V
Opinião: Muito bom

terça-feira, 6 de março de 2012

Dia – Copiapó – Paso San Francisco – Fiambalá (500km) - 04/03/2012

Chegou o grande challenge da viagem. Cruzar a fronteira de San Francisco, cujo caminho se compõe por 300km de rípio.


Muitos me aconselharam a não retornar à Argentina por esse caminho sozinho, uma vez que alguns trechos são traiçoeiros por e quedas podem ser inevitáveis. Tudo isso unido à altitude de 5000m em um ambiente sem absolutamente nenhuma infra-estrutura.

Enfim, o desafio parecia arriscado mas nada que não pudesse ser tentado por um indíduo prudente e tranquilo. Além do mais, não se pode ir aos Andes e não conhecer a Laguna Verde.

Acordei cerca de 7:00 da manhã, pois sabia que o trecho poderia demorar mais de 12 hrs para ser percorrido e, viajar no rípio de noite, é definitivamente desaconselhável.


Saí do hotel cerca de 8:00hs após um substancioso ´desayuno´. O GPS não reconhecia o caminho, uma vez que está programado para traçar rotas em vias de asfalto. Como segunda alternativa, tentei achar a saída por dedução do mapa mas não consegui por falta de placas. A solução foi entrar em um das únicas ´estación de servicios´abertas naquele horário.


A pessoa que me atendeu não sabia exatamente mas disse que o caminho deveria ser no sentido de Paipote.
Segui o direcionamento a mim proposto e finalmente avistei a primeira placa:




A placa alertava sobre a necessidade de autonomia uma vez que não há postos de gasolina no caminho. Estava preparado com 20l de  no galão.


Poucos km depois avistei uma outra placa de aviso. Dessa vez, o alerta seria para os navegantes de inverno. A neve deve ser forte por lá.




Após alguns poucos kms de asfalto começou a tão esperada estrada de rípio. Inicialmente, percorrer o rípio parecia bastante tranquilo  pois o solo estava seco e batido. Até achei que os alertas, conselhos e toda sorte de informações obtidas sobre o trecho eram histórias de pescador.

Rípio compactado.

Percorridos uns 100km no rípio batido ,chegava hora de receber os carimbos e resolver todos os trâmites aduaneiros. A fiscalização chilena fica a uns 200 km da fronteira de fato.


Parei a moto, preparei os documentos ( passaporte, documento da moto e carta verde) e entrei na sala dos oficiais. Chegando lá, um homem bastante atencioso, solicitou o comprovante de entrada no Chile, assim como um pequeno formulário burocrático com os dados da moto.

Disse a ele que não havia recebido papel nenhum e que na aduana por onde havia passado, nem mesmo havia carimbado meu passaporte. 


O rapaz achou estranho e resolveu consultar meus dados no computador. Eis que percebeu que nada havia sido registrado em meu nome. Dessa vez, eu fiquei desconfiado, pois na aduana do paso de jama a oficial ficou quase 10 min com meus documentos. Inclusive , me recordei  bem do fato pois tinha sido muito mal atendido.

Por mera confiança, resolveu por carimbar meu passaporte. Pediu que me direcionasse à Receita Federal de lá, a qual fica na sala ao lado, e os trâmites são feitos por um senhor.


Pelo que percebi, o objetivo seria somente confirmar os dados da moto e me liberar.


Após conversar com o oficial percebi que não havia passado na aduana chilena quando chegara à San Pedro. A aduana do paso de jama, que havia pensado ser conjugada, (argentina e chilena)  na verdade,  era  somente argentina. A aduana chilena fica localizada na cidade de San Pedro de Atacama, logo  na entrada. Como não há barreiras por lá as pessoas não as vezes  não percebem.


Que vacilo! Não havia registrado minha entrada no Chile. O próprio oficial, sabendo que não havia feito de má fé, comentou que seria engraçado , não fosse trágico: ´Leandro tu estás ilegal en Chile!´...disse mais: ´’ tenemos una situación que tu no ha pasado por Chile oficialmente´. 


Após alguns minutos de conversa, deixou-me seguir viagem mas pediu pelo amor de Deus que tomasse cuidado pois se algo acontecesse comigo até a fronteira, ele poderia ter problemas.
Fica aí uma dica para os marinheiros de primeira viagem. Prestem atenção nas aduanas.



Após a passagem pela aduana chilena começou o pesadelo do dia.


O rípio, que então parecia ´mamão com açúcar´, se tornou um dos lugares mais difíceis que já andei de moto. Até pior que barro molhado, em alguns pontos.

O solo era arenoso, fundo e com algumas pedras grandes, as quais exigiam que se passasse rápido para evitar perder a direção. Entretanto, andar muito rápido poderia levar a uma queda por conta de trechos que se tornavam muito arenosos repentinamente, fazendo com que a roda da frente sambasse.


Quase caí umas 6 vezes, mas por acabei caindo somente uma. Estava a cerca de 70 km/h. A queda foi relativamente forte, mas o impacto no rípio nem tanto. Ainda bem!






Consequências:


- Lente de vidro do farol quebrado,
- piscas quebrados,
- suporte baú lateral trincou,
- painel entortado,

- suporte gps touratech um pouco entortado,
- Viseira de iridium Arai ficou toda ralada,



Coisas que funcionaram no impacto:


- protetor de carenagem SW Motech. A carenagem ficou sem nenhum arranhão.


- protetor de motor SW Motech. O motor ficou absolutamente ileso. Sem nenhum risco,


- farol auxiliar da  SW Motech. Muito forte. Ficou ralado e foi o sofreu a primeira pancada. O mecanismo do farol funcionou, uma vez que só virou de lado. Depois foi só arrumar para posição correta. Além do mais, dado que o farol principal quebrou, ainda bem que tenho o auxiliar,


- Mala lateral SW Motech. Aguentou bem o tranco. As extremidades de borracha amorteceram a pancada,



- Jaqueta, calças e botas BMW. Fizeram muito bem o trabalho. Nenhum arranhão.


Coisas que não funcionaram no impacto:

-suporte de malas laterais SW Motech. Muito fraco. Deveria ter um mecanismo para amortecer a queda, ou soltar a mala ao leve impacto. Os da BMW Adventure tem esse mecanismo,


-Baú original Bmw. Trincou. De fato foi bem pouco, mas trincou. Aconselho a comprar o baú de metal da GS Adventure ou SW Motech/touratech. O original da BM definitivamente não é para viagens onde há risco de queda em terra ou rípio. Pode deixar você na mão, pois o material é fraco,

- protetor de farol Roncar. Uma porcaria! Foi o que mais entortou. . Tenho certeza que se fosse da Touratech, teria evitado a quebra da lente do farol,



Após a queda percebi que estava rápido demais. Diminui bem a velocidade, evitando outras possíveis quedas.
Primeira coisa que fiz foi verificar se estava tudo ok comigo. Estava sim, ainda bem. Só uma pancadinha na região das costelas cuja dor já está passando. Normal até em queda de bicicleta.
Parei, olhei para os lados e pensei:´Vamos levantar essa bicha´. E agora, será que consigo? Estou a 4500 m, um pouco sem fôlego e meio dolorido.
 

Peguei a moto pelo guidon e pelo rack do baú traseiro, usando o corpo como alavanca.Tranquilo! Foi mais fácil do que imaginava. Nada como ler exaustivamente sobre o assunto antes de viajar, e descobrir que a teoria se aplica na prática.

Analisei a moto e vi que nada tinha se comprometido. Estava perfeita. Até o farol estava com a lâmpada funcionado. Só me preocupava um pouco o baú lateral, que havia ficado somente com uma fixação. Pensei: quando chegar no próximo hotel, dou um jeito com o arame que tenho de reserva.

Moto levantada e bola pra frente. Continuei o caminho, ainda tenso mas já no fim. Enfim cheguei à esplendorosa lagoa azul. 


Que lugar cinematográfico! Um dos lugares mais bonitos que já vi na minha vida. Aquele momento, à quase 5000m foi único e inesquecível.



Poucos minutos depois, cheguei à aduana Argentina, a qual fica logo na fronteira. Ao contrário da anterior, fui muito bem atendido. Até me perguntaram o que estava fazendo alí em pleno carnaval. Comentei que já havia acabado e bla bla bla...





Impressionantemente, ela fica a exatos 4726 metros de altitude. Como podem os oficiais ficarem lá trabalhando todos os dias?

Perguntei ao oficial se eles ficavam muito tempo por lá, uma vez que a essa altitude o corpo , teoricamente, já não consegue se adaptar. Disse que ficavam 45 dias, em regime rotacional, e que  ele em particular, nunca teve problemas de saúde.

Chegando ao hotel, já em Fiambalá, dei uma checada mais apurada na motoca. Tudo tranquilo para continuar a viagem! Só fiquei assustado pois quando tirei a chave do contato ela não quis voltar ao lugar por conta do rípio da estrada. Ainda bem que trouxe um WD para essas horas.

No dia seguinte terei que reforçar a estrutura do baú lateral e desentortar o suporte do GPS.

Achei  que esse baú alemão da Trax, propagado como um dos melhores do mundo, aguentasse mais pancada. Para aqueles que assistiram ao filme do Ewan MacGregor, vejam as vezes que o cara caiu na Road of Bones. O baú da GS Adventure aguentou bem.

Enfim...fiquei decepcionado com a Trax e agradecido por estar sã e salvo,  e acima de tudo, ter enfrentado a situação calmamente, da melhor forma possível.

Moral da história: Tente evitar o Paso San Francisco quando sozinho. A estrada tem muito risco de queda. Não há como antecipar se o rípio vai se tornar extremamente arenoso do nada. E não adianta se achar habilidoso. Até mesmo no Dakar há quedas por lá.

Se for, vá bem de vagar. 40 km/h no máximo! 
Vai ser cansativo? Vai...Mas é melhor do que  cair. E tem mais, utilizar-se do princípio da velocidade/inércia para passar sobre as pedras/areia pode não sempre ser uma boa estratégia. Mantenha-se de pé fazendo peso no rada da frente mas ´despacio´.





Amanhã rumo à Santiago del Estero, já no caminho de volta ao Brasil.

Abs!!


Hotel em que me hospedei: Hotel de la Municipalidad
Opinião: Bom 

segunda-feira, 5 de março de 2012

7º Dia – Antofagasta - Copiapó (550km) - 03/03/2011

Fiquei 2 dias sem internet, por isso não pude postar ou responder aos emails. Sorry!

O dia não teve muitas novidades exceto um evento que tomou-me quase 1h e 30min. De resto, algumas paisagens bonitas e a surpresa por ter encontrado uma cidade de contratastes sociais tão evidentes.


Como a viagem do dia prometia ser tranquila, resolvi acordar tarde. Por conta disso, quase perdi o café da manhã. 


Na saída rumo à RN 5 dei de cara com um portão gigante com a seguinte mensagem. ´la ruta esta cerrada´. Por conta disso acabei perdendo algumas fotos en ´La mano del desierto´, parada próxima à Antofagasta pela RN 5.


Nem precisei parar para me localizar no mapa. Um motociclista chileno, que estava logo atrás de mim, me ajudou a achar a rota alternativa.

Rota encontrada, peguei um dos maiores trechos que cortam o deserto do Atacama. Não há nada em especial para apreciar a não ser um horizonte arenoso cheio de formações montanhosas dos andes. Pelo menos a temperatura estava  amena.

Algumas fotos:


Saída de Antofagasta.Nada de muito especial na cidade. Entretanto, vale lembrar que por ter acordado tarde, não tive tempo de explorar muito.

Estrada pelo Deserto. Quase 3 hrs com essa paisagem.
 Após quase 3 hrs, finalmente voltei a ver o oceano. Nessas, resolvi parar para um rápido lanche e ,talvez algumas fotos.


O caminho era parecido com o do dia anterior. O acesso ao oceano se dava por uma estrada com partes em rípio, e partes em areia. Dessa vez tudo ok. Exceto...


Bom, após a parada guardei as coisas e parti. Quando acessei a estrada  e após alguns kms, fiz uma rápida checagem nos bolsos, como sempre faço. Dessa vez, não senti no bolso esquerdo o meu iphone. Parei a moto para ver se estava na mala tanque, e nada do dito cujo.


Pensei. E agora? Como vou achar a entrada, uma vez que há pelo menos uma estradinha a cada 400 m? Rodei umas 3 pela pista vezes e não achei a entrada. Foi aí que me ocorreu de olhar as fotos e verificar se conseguia achar algum tipo de indicador do lugar. Sabia que seria meio inócuo uma vez que havia 3 coisas. Montanhas unicolores, o mar e algumas pedras na praia.


Ao olhar, verifiquei que havia uma mancha de areia em uma das montanhas. Felizmente, consegui achá-la. Então, seria hora de achar a exata posição da mancha em relação às fotos.


Bom, resumo da ópera. Voltei com a moto e andei uns 30 minutos. No final achei o iphone, após quase 1hr e 30min. Ufa...prejuízo a menos!! 
Ele estava bem na praia, lugar onde coloquei o tripé para tirar uma fotos. A maré já estava quase chegando no bendito.


Vídeo:


Fotos que me ajudou a identificar a entrada:


Por incrível que pareça aquela mancha é meio que única. Imagina lembrar da entrada no meio desse uniformismo de ambiente.
Após o infortúnio, voltei a estrada para mais umas 3 ou 4 hrs de viagem até Copiapó.


Me acomodei no quarto, comi e fui dar uma banda na cidade. A cidade é impressionantemente contratada socialmente. Um centro belíssimo e bem desenvolvido, rodeado por áreas desprovidas de investimento. A maior parte da cidade me pareceu bastante pobre. 


Me chama a atenção a cidade ter alguns bons hotéis no centro. Preciso descobrir o que atrai turistas de negócio, o que aparentemente é o core business do hotel que fiquei.


O dia seguinte será a viagem mais tensa do circuito Atlântico - Pacífico, uma vez quem 300km em estrada de rípio, o qual não se sabe se está em boas condições para moto.


abs,

Hotel em que me hospedei: Chagal
Opinião: Muito bom 

sexta-feira, 2 de março de 2012


6º Dia – San Pedro de Atacama – Tocopilla - Antofagasta (550km)

Em algum momento da vida, cada um de nós já ousou encontrar definições para a felicidade. A filosofia, por exemplo, tenta nos ajudar a buscar os métodos com os quais podemos alcançá-la.

Pois bem. Após quase uma semana de ´peregrinação´ sobre duas rodas, passei a entender melhor porque andar de moto traz uma satisfação como nenhum outro meio de transporte.
Felicidade, talvez, tenha muito a ver com liberdade e controle .

A moto é uma ferramenta que nos ajuda a alcançar a liberdade. Com ela, podemos chegar a qualquer lugar, sobre qualquer tipo de terreno. Isso nos permite um controle absoluto da situação em uma viagem.

Essa divagação foi só para continuar a propaganda do texto do dia anterior, onde enumerei algumas outras qualidades da moto.

Chega de enrolação e vamos à descrição dos fatos ocorridos no dia de hoje...

Por ter ficado lendo até tarde ontem, acordei um pouco depois das 8 da manhã no dia de hoje. Antes de fazer o check out no hotel, aproveitei para das umas bandas pelo centro de San Pedro, uma vez que a viagem de hoje seria relativamente rápida, não chegando nem a 600 km.



Rua típica de San Pedro
Igreja da cidade. O Chile é uma nação bastante católica. Há cruzes e imagens de Jesus em todos os lugares.
Pousada que fiquei hospedado
San Pedro devidamente reconhecida e fotografada, chega hora de arrumar as coisas e partir. Na hora de guardar os cacarecos nos baús, me lembrei que no dia anterior meu retrovisor direito havia se soltado. Acredito eu, que por conta de ter sido usado recorrentes vezes como cabide de capacete.

Pois bem. Resolvi separar uns 10 minutos para fazer o reparo.
Nessa viagem, ainda não havia  tocado na mala de ferramentas. Digamos que pode ser um fato a comemorar. Hoje, no entanto, fui em busca da chave 14, número qual é utilizado em diversas porcas de moto. Advinha que lei apareceu? 


Pois é. Trouxe  6 números diferentes de chaves, menos a dita cuja. Nessas horas é que nos arrependemos de trazer tanta tralha.
Ainda bem que tinha um alicate de pressão que ajudou no serviço, todavia, espanando  a porca um pouco.




Com tudo arrumado, fui em busca do posto de gasolina de San Pedro. Chegando lá, encosto ao lado de uma van que estava na fila esperando sua vez. Eis que na estação escutada pelo motorista toca , adivinhem qual música? Pois é...Michel Teló está bombando no Chile também. Desse jeito, esse cara vai ficar mais popular que o Pelé.

Tanque cheio, hora de colocar o pé na estrada rumo à Calama, Tocopilla e, depois,  Antofagasta.



Saída de San Pedro.

O vento colaborou e a moto chegava naturalmente aos 140/150km/h. A estrada parecia uma reta cortando as montanhas andinas. Me perguntava em que momento chegaria a descida, uma vez que Tocopilla está no nível do mar e eu estava a 2500m.
Só uns 15 km de Tocopilla, iniciou-se a descida, de uma inclinação sem precedentes.


Não parece pela foto mas a descida é bem íngreme.

Quase 2 horas de viagem, e consegui cumprir mais um objetivo da . Cheguei ao Oceano Pacífico!

Entrada da ´maravilhosa´ Tocopilla.

A cidade de Tocopilla é sem graça  e tem vários bolsões de pobreza pelas ruas. Não havia um único verde para contrastar com o marrom forte das montanhas costeiras. Me senti como no filme ´O Vingador do Futuro´,onde grande parte das cenas passam-se em Marte, cuja coloração da terra é muito parecida.




A estrada rumo à Antofagasta é inteiramente pela costa do Pacífico, com uma paisagem que une a cordilheira unicolor, um pouco de areia e os azuis fortes do Oceano Pacífico e do céu. Uma combinação que proporciona ótimas fotos.




Há pessoas que não gostam da mesmice e precisam constantemente buscar ´sarna para se coçar´. Bem. Esse é o meu caso, felizmente ou infelizmente. Cerca de 100 km de Antofogasta, já com fome e sede, resolvi pegar uma trilha que ligava a estrada de asfalto à ´boca´ do oceano. O objetivo principal seria comer  olhando para o mar e aproveitar para tirar umas fotos legais.

A estrada de rípio devia ter pouco mais de 4km. Até aí tudo bem. O problema é que em determinado momento, o rípio virou areia fofa e a jamanta atolou. E para virá-la no ao sentido oposto? Perdi uns 2 kg no exercício.

Resolvi descer da moto e tocá-la por fora para evitar que atolasse novamente. Pelo menos dessa vez ela nem ameaçou tombar.

Essa areia é um crime. A roda da frente perde completamente a firmeza.



Depois de virar a moto no sentido da pista.
Uma foto para recordação.

De resto a viagem transcorreu normalmente, com uma parada na ´playa grande´ do Chile, a qual causaria inveja a qualquer paulistano enfrentando trânsito na ida ao litoral sul. A praia estava absolutamente deserta e tinha toda uma infra estrutura preparada.
Dessa vez consegui postar um vídeozinho.

Descida à ´Playa Grande´.




Chegando em Antofagasta, resolvi me hospedar do Holiday Inn Express, local de onde , agora, estou lhes escrevendo esse texto.
 

Agora pouco, fui à um pizza delivery comprar uma pizzinha chilena. Não é lá essas coisas. Bem sem graça..
 


Amanhã minha viagem será tranquila, pois tenho que percorrer pouco mais de 500km até Copiapó. Vou passear por Antofagasta pela manhã.

Abs,


Hotel em que me hospedei:Holiday Inn Express
Opinião: Muito bom 

quinta-feira, 1 de março de 2012

5º Dia – Tilcara – San Pedro de Atacama (435 km) – Que caminho maravilho. E que frio!!!

Resumo o dia hoje em uma só palavra: antagonismos.

Sabe aquele dia em que você passa por sensações opostas? Prazer x desprazer, confiança  x desconfiança e certeza x incerteza. Hoje, passei por momentos em que a temperatura caia 10 graus a cada 10min de pilotagem. As percepções da viagem mudavam a cada minuto. 


O dia de hoje amanheceu perfeito. Sol raiante, céu absolutamente cristalino unido à uma brisa  agradável, o que deixava a temperatura  amena. 


Pena que esse clímax do amanhecer sofreu um pequeno contratempo. Na saída do hotel, não fosse um movimento ´ninja´ com a perna esquerda, teria derrubado a jamanta. Chão de rípio realmente não combina com manobras de ré. 


Regra do jogo para uma jamanta de 220kg com bagagens laterais e 20l de combustível : Estando sentado na mesma , só  manobre para frente, e de preferência com o motor ligado e tracionado. Capiche?

É isso aí...

Após esse momento peculiar, peguei a RN 52 rumo à Susquez, cidade próxima da fronteira com o Chile. 
Saída de Tilcara rumo ao pequeno pueblo de Susquez.



Logo no início da estrada comecei a subir vertiginosamente até alcançar 4200m de altitude. A estrada era bastante sinuosa e tive  tomar cuidado com alguns trechos onde havia um pouco de óleo na pista, assim como  cascalhos na pista decorrentes de desmoronamentos.



Curvas até em formato de U.


A paisagem é belíssima,  apresentando uma mescla de cores, as quais parecem ter maior intensidade devido à luminosidade do sol,  claramente diferenciada na altitude.

Pelo caminho é fácil encontrar tropas de lhamas pastando as cercanias da pista.

Essa aqui não gostou muito de ser fotografada. No geral parecem ser animais bem dóceis.
 Há também algumas salinas, que atraem os fotógrafos de plantão. Como estou equipado com botas a prova d´agua, parei para tirar uma foto bem na salina . Ainda bem que trouxe meu tripé para esses momentos. Viajar sozinho tem dessas...


Salina tem uma leve camada de água que deixou a bota totalmente branca.
Após deixar a salina, eis que um habitante local me parou pedindo ajuda ao lado de sua moto. Imaginava que provavelmente pediria combustível, uma vez que nessa região há somente 2 postos em um raio de 400 km, e a possibilidade de não terem gasolina é bem alta. Não deu outra. O rapaz tinha até mangueira e uma garrafa para transferir o combustível.
Coloquei a mangueira no galão e lhe dei 2 litros de nafta.

Apesar de parecer, não achei que fosse oportunismo,  uma vez que ele insistiu em pagar. 

Um detalhe que vem me impressionando com relação aos povos indígenas da região é o quanto aparentam ser éticos e decentes. Até agora só tive boas impressões.




Após  foto batida por sua espôsa,  pediu a câmera para ver se estava bem na foto.


A viagem até a fronteira passa por diversos cenários andinos. O silêncio é fato que impressiona. Só se escuta um barulho forte do vento e algumas trovoadas onde há nuvens. Não há um único ser a 5000m. Bem....isso se não considerarmos o animal morto que encontrei na pista. O pobre coitado estava rodeado de garrafas de cerveja com um placa pendurada no pescoço.







Algumas fotos:


Nesse ponto já estava a mais de 4500m de altitude. O frio já incomdava.
Parada para abastecimento.




Tudo estava perfeito, apesar do frio e das núvens que se aproximavam. No entanto, próximo à fronteira, uma obra na pista desviou a rota em cerca de 10km para uma estrada de rípio. A estrada era boa, mas logo no início o solo estava muito  arenoso. Quase tombei a jamanta pela segunda vez no dia. Nesse momento não sabia se deixava a moto cair ou se colocava toda força na perna para segurá-la. Dizem que se ela tender a cair você deve deixar, de modo a evitar algum tipo de contusão nas pernas.
Bom, eu resolvi não a deixar tombar e a decisão provou-se acertada.

Estrada de rípio.As partes arenosas deixam a roda da frente sem suporte.
 Passado o pequeno sufoco, chegou a aduana. Dessa vez não fui muito bem atendido pelos oficiais lá de plantão. Inclusive, tive que esperar quase meia hora até que um ônibus carregado de ingleses despachasse com os oficiais. 
Realmente, a união Pinochet - Margareth Thatcher tornou o Chile atrativo aos ingleses. Têm aos montes por aqui. Nem parece que estou em San Pedro, e sim em Brighton. E o pior, são aqueles ingleses do tipo ´quiero ser Chê pero soy colonizador´.


Em Tilcara não vi uma única alma inglesa. Seria por conta das Malvinas? Bem, lá só vi mesmo um monte de ´bicho grilo´ Argentino.


Fronteira, logo após a aduana. Notem que há uma discrepância nas distâncias para S. P de Atacama entre a placa Argentina, que indica 160km,  e a Chilena que indica 157. Seria proposital? E Calama?Tem 30 km de diferença entre as 2 placas.




Após a fronteira, começou a pesadelo do dia. Vejam na foto acima as núvens carregadas. E olha que a fronteira fica a 4500m de altitude e no caminho a San Pedro a altitude aumenta em, pelo menos, mais 600 m. 


O frio sentido estava de rachar. Acredito que por volta dos -10 graus, apesar da temperatura girar em torno de 0. E para piorar, peguei quase 1 hora daquela neve fina , que me deixou completamente ensopado e duro de frio. 
Me arrependi amargamente de não ter comprado uma BM com heated grips. Minha mão ficou tão congelada, que nem nos tempos motociclísticos de Inglaterra , fiquei com a mão nesse estado.


Enfim, esse foi mais um antagonismo do dia. O êxtase da manhã se compensou com o sofrimento da tarde. E olha que além do frio, ainda havia pouco oxigênio por conta do ar rarefeito da altitude.

Nessa hora pensei 2 vezes antes de parar para tirar a foto. Mas havia prometido para mim mesmo que registraria todos os momentos.


No final das contas deu tudo certo. Me confortava o fato que seriam somente alguns kilômetros. Logo começaria a descer rumo aos 2500m de San Pedro.

Já descendo rumo à San Pedro.

Por hoje foi isso.

Mudei um pouco meus planos. Não vou ficar aqui em San Pedro ´marcando toca´. Acho que vou botar o ´pé na estrada´ rumo à Antofagasta.  No final das contas quero é andar de moto. Ficar estacionado com uma BM 1200 por perto, é definitivamente a escolha errada.

Quem tem moto sabe o quanto prazeroso é andar com ela. Quando chego nos lugares, não vejo a hora de montar na motoca de novo. 
E tem mais, a moto propicia uma absorção muito grande das diversas características dos lugares. Isso se dá pois além de ter uma visão panorâmica ao ar livre, ela ainda nos possibilita ter uma sensação real da temperatura , do cheiro e da audição. Todos os sentidos trabalhando para que se construa uma percepção do lugar.

Abs!!


p.s: perdão pelos erros de digitação. Por incrível que pareça, não tenho corretor no meu word English version.


Hotel em que me hospedei:Don Raul
Opinião: Péssimo