8º Dia – Copiapó – Paso San Francisco – Fiambalá (500km) - 04/03/2012
Chegou o grande challenge da viagem. Cruzar a fronteira de San Francisco, cujo caminho se compõe por 300km de rípio.
Muitos me aconselharam a não retornar à Argentina por esse caminho sozinho, uma vez que alguns trechos são traiçoeiros por e quedas podem ser inevitáveis. Tudo isso unido à altitude de 5000m em um ambiente sem absolutamente nenhuma infra-estrutura.
Enfim, o desafio parecia arriscado mas nada que não pudesse ser tentado por um indíduo prudente e tranquilo. Além do mais, não se pode ir aos Andes e não conhecer a Laguna Verde.
Acordei cerca de 7:00 da manhã, pois sabia que o trecho poderia demorar mais de 12 hrs para ser percorrido e, viajar no rípio de noite, é definitivamente desaconselhável.
Saí do hotel cerca de 8:00hs após um substancioso ´desayuno´. O GPS não reconhecia o caminho, uma vez que está programado para traçar rotas em vias de asfalto. Como segunda alternativa, tentei achar a saída por dedução do mapa mas não consegui por falta de placas. A solução foi entrar em um das únicas ´estación de servicios´abertas naquele horário.
A pessoa que me atendeu não sabia exatamente mas disse que o caminho deveria ser no sentido de Paipote.
Segui o direcionamento a mim proposto e finalmente avistei a primeira placa:
A placa alertava sobre a necessidade de autonomia uma vez que não há postos de gasolina no caminho. Estava preparado com 20l de no galão.
Poucos km depois avistei uma outra placa de aviso. Dessa vez, o alerta seria para os navegantes de inverno. A neve deve ser forte por lá.
Após alguns poucos kms de asfalto começou a tão esperada estrada de rípio. Inicialmente, percorrer o rípio parecia bastante tranquilo pois o solo estava seco e batido. Até achei que os alertas, conselhos e toda sorte de informações obtidas sobre o trecho eram histórias de pescador.
| Rípio compactado. |
Percorridos uns 100km no rípio batido ,chegava hora de receber os carimbos e resolver todos os trâmites aduaneiros. A fiscalização chilena fica a uns 200 km da fronteira de fato.
Parei a moto, preparei os documentos ( passaporte, documento da moto e carta verde) e entrei na sala dos oficiais. Chegando lá, um homem bastante atencioso, solicitou o comprovante de entrada no Chile, assim como um pequeno formulário burocrático com os dados da moto.
Disse a ele que não havia recebido papel nenhum e que na aduana por onde havia passado, nem mesmo havia carimbado meu passaporte.
O rapaz achou estranho e resolveu consultar meus dados no computador. Eis que percebeu que nada havia sido registrado em meu nome. Dessa vez, eu fiquei desconfiado, pois na aduana do paso de jama a oficial ficou quase 10 min com meus documentos. Inclusive , me recordei bem do fato pois tinha sido muito mal atendido.
Por mera confiança, resolveu por carimbar meu passaporte. Pediu que me direcionasse à Receita Federal de lá, a qual fica na sala ao lado, e os trâmites são feitos por um senhor.
Pelo que percebi, o objetivo seria somente confirmar os dados da moto e me liberar.
Após conversar com o oficial percebi que não havia passado na aduana chilena quando chegara à San Pedro. A aduana do paso de jama, que havia pensado ser conjugada, (argentina e chilena) na verdade, era somente argentina. A aduana chilena fica localizada na cidade de San Pedro de Atacama, logo na entrada. Como não há barreiras por lá as pessoas não as vezes não percebem.
Que vacilo! Não havia registrado minha entrada no Chile. O próprio oficial, sabendo que não havia feito de má fé, comentou que seria engraçado , não fosse trágico: ´Leandro tu estás ilegal en Chile!´...disse mais: ´’ tenemos una situación que tu no ha pasado por Chile oficialmente´.
Após alguns minutos de conversa, deixou-me seguir viagem mas pediu pelo amor de Deus que tomasse cuidado pois se algo acontecesse comigo até a fronteira, ele poderia ter problemas.
Fica aí uma dica para os marinheiros de primeira viagem. Prestem atenção nas aduanas.
Após a passagem pela aduana chilena começou o pesadelo do dia.
O rípio, que então parecia ´mamão com açúcar´, se tornou um dos lugares mais difíceis que já andei de moto. Até pior que barro molhado, em alguns pontos.
O solo era arenoso, fundo e com algumas pedras grandes, as quais exigiam que se passasse rápido para evitar perder a direção. Entretanto, andar muito rápido poderia levar a uma queda por conta de trechos que se tornavam muito arenosos repentinamente, fazendo com que a roda da frente sambasse.
Quase caí umas 6 vezes, mas por acabei caindo somente uma. Estava a cerca de 70 km/h. A queda foi relativamente forte, mas o impacto no rípio nem tanto. Ainda bem!
Consequências:
- Lente de vidro do farol quebrado,
- piscas quebrados,
- suporte baú lateral trincou,
- painel entortado,
- suporte gps touratech um pouco entortado,
- Viseira de iridium Arai ficou toda ralada,
Coisas que funcionaram no impacto:
- protetor de carenagem SW Motech. A carenagem ficou sem nenhum arranhão.
- protetor de motor SW Motech. O motor ficou absolutamente ileso. Sem nenhum risco,
- farol auxiliar da SW Motech. Muito forte. Ficou ralado e foi o sofreu a primeira pancada. O mecanismo do farol funcionou, uma vez que só virou de lado. Depois foi só arrumar para posição correta. Além do mais, dado que o farol principal quebrou, ainda bem que tenho o auxiliar,
- Mala lateral SW Motech. Aguentou bem o tranco. As extremidades de borracha amorteceram a pancada,
- Jaqueta, calças e botas BMW. Fizeram muito bem o trabalho. Nenhum arranhão.
Coisas que não funcionaram no impacto:
-suporte de malas laterais SW Motech. Muito fraco. Deveria ter um mecanismo para amortecer a queda, ou soltar a mala ao leve impacto. Os da BMW Adventure tem esse mecanismo,
-Baú original Bmw. Trincou. De fato foi bem pouco, mas trincou. Aconselho a comprar o baú de metal da GS Adventure ou SW Motech/touratech. O original da BM definitivamente não é para viagens onde há risco de queda em terra ou rípio. Pode deixar você na mão, pois o material é fraco,
- protetor de farol Roncar. Uma porcaria! Foi o que mais entortou. . Tenho certeza que se fosse da Touratech, teria evitado a quebra da lente do farol,
| Após a queda percebi que estava rápido demais. Diminui bem a velocidade, evitando outras possíveis quedas. |
Parei, olhei para os lados e pensei:´Vamos levantar essa bicha´. E agora, será que consigo? Estou a 4500 m, um pouco sem fôlego e meio dolorido.
Peguei a moto pelo guidon e pelo rack do baú traseiro, usando o corpo como alavanca.Tranquilo! Foi mais fácil do que imaginava. Nada como ler exaustivamente sobre o assunto antes de viajar, e descobrir que a teoria se aplica na prática.
Analisei a moto e vi que nada tinha se comprometido. Estava perfeita. Até o farol estava com a lâmpada funcionado. Só me preocupava um pouco o baú lateral, que havia ficado somente com uma fixação. Pensei: quando chegar no próximo hotel, dou um jeito com o arame que tenho de reserva.
Moto levantada e bola pra frente. Continuei o caminho, ainda tenso mas já no fim. Enfim cheguei à esplendorosa lagoa azul.
Que lugar cinematográfico! Um dos lugares mais bonitos que já vi na minha vida. Aquele momento, à quase 5000m foi único e inesquecível.
Poucos minutos depois, cheguei à aduana Argentina, a qual fica logo na fronteira. Ao contrário da anterior, fui muito bem atendido. Até me perguntaram o que estava fazendo alí em pleno carnaval. Comentei que já havia acabado e bla bla bla...
Impressionantemente, ela fica a exatos 4726 metros de altitude. Como podem os oficiais ficarem lá trabalhando todos os dias?
Perguntei ao oficial se eles ficavam muito tempo por lá, uma vez que a essa altitude o corpo , teoricamente, já não consegue se adaptar. Disse que ficavam 45 dias, em regime rotacional, e que ele em particular, nunca teve problemas de saúde.
Chegando ao hotel, já em Fiambalá, dei uma checada mais apurada na motoca. Tudo tranquilo para continuar a viagem! Só fiquei assustado pois quando tirei a chave do contato ela não quis voltar ao lugar por conta do rípio da estrada. Ainda bem que trouxe um WD para essas horas.
No dia seguinte terei que reforçar a estrutura do baú lateral e desentortar o suporte do GPS.
Achei que esse baú alemão da Trax, propagado como um dos melhores do mundo, aguentasse mais pancada. Para aqueles que assistiram ao filme do Ewan MacGregor, vejam as vezes que o cara caiu na Road of Bones. O baú da GS Adventure aguentou bem.
Enfim...fiquei decepcionado com a Trax e agradecido por estar sã e salvo, e acima de tudo, ter enfrentado a situação calmamente, da melhor forma possível.
Moral da história: Tente evitar o Paso San Francisco quando sozinho. A estrada tem muito risco de queda. Não há como antecipar se o rípio vai se tornar extremamente arenoso do nada. E não adianta se achar habilidoso. Até mesmo no Dakar há quedas por lá.
Se for, vá bem de vagar. 40 km/h no máximo!
Vai ser cansativo? Vai...Mas é melhor do que cair. E tem mais, utilizar-se do princípio da velocidade/inércia para passar sobre as pedras/areia pode não sempre ser uma boa estratégia. Mantenha-se de pé fazendo peso no rada da frente mas ´despacio´.
Amanhã rumo à Santiago del Estero, já no caminho de volta ao Brasil.
Abs!!
Hotel em que me hospedei: Hotel de la Municipalidad
Opinião: Bom
Que susto!
ResponderExcluirMadura, e o Spot..?
ResponderExcluirPessoal ficou preocupado!
Abs
Grande Slayter!
ExcluirA bateria do Spot acabou lá perto de Copiapó. Ficou muito tempo ligado no OK e a bateria se foi..
Tá tudo ok..Amanhã faço a ponta final da viagem..chego em sampa por volta das 11hs da noite.
Tô meio atrasado no blog....
abs