quarta-feira, 7 de março de 2012

10º Dia (Santiago del Estero – Corrientes) – 625 km – 06/03/2012


Acordei um pouco mais tarde pois após alguns dias intensos de pilotagem, o corpo começa a sentir o desgaste.

Fica a dica: Aos próximos viajantes, aconselho pelo menos 1 parada antes de retornar. O meu roteiro é um pouco agressivo na kilometragem diária, principalmente contando-se que a última perna será a ´maratona´ de 1070km. Um verdadeiro iron butt.

Voltando ao dia...


Após ter passado pelo pequeno trecho de estrada mesclada com rípio, eis que 2 motociclistas em duas BMWs 650 solicitam minha parada.






Não me lembro o nome dele, o dela se não me engano era Ute. Tratavam-se de 2 alemães de meia idade, viajando há quase 5 meses mundo afora. As motos vieram via  navio para a América do Sul, e portavam placas da Alemanha. 

Ficamos quase 1 hr papeando na beira da estrada. Perigo não havia, pois naquele fim de mundo passa 1 carro a cada 10 min, e olhe lá. Eles, contando da viagem, e eu comentando sobre a minha e um pouco sobre o Brasil.


Os dois tem uma enorme vontade de viajar pelo Brasil mas, infelizmente,  não receberam boas indicações sobre segurança nas estradas. Por incrível que pareça, irão percorrer toda América Latina, menos o nosso país. Passarão somente por Manaus, pois trata-se de uma rota necessária. 


Comentaram que fazia dias que não avistavam um motociclista, por isso me pararam de modo a papear um pouco. Todos brasileiros que encontraram pelo caminho, muitos por sinal, estavam sempre com pressa, segundo eles. Todos com datas apertadas e viagens de tempos curtíssimo, com  centenas de kms percorridos por dia. Pensei comigo mesmo: Acho que eles não perceberam que nós  brasileiros ao contrário deles não vivemos no Welfare State. Esse, por sinal, que por sinal está dando sinais de falência absoluta por benefícios excessivos aos seus cidadãos.
 

Economia e sociedades à parte, os dois estavam em uma verdadeira aventura. Têm como meta somente acampar, sem paradas em hotéis e lugares com infra-estrutura. Todos os dias andam no máximo  400km  procurando lugares agradáveis para montar as barracas e cozinhar uma comida diferente,  que sempre compram nos mercados locais. Já percorreram quase toda Argentina, do Ushuaia à Buenos Aires. Agora, seguem ao Chile pelo caminho que fiz.

Estão sem rumo, em busca de algo que nem mesmo eles sabem o que é. No fundo, acho que estão fugindo um pouco da crise, que deve estar deixando qualquer europeu de cabelos em pé. 


Principalmente os mais velhos, que podem ter que abrir mão de alguns de seus direitos adquiridos. Inclusive me perguntaram o que achava da crise, e se realmente ainda acreditava no futuro da sociedade capitalista. Eles já não mais acreditam.

Por um lado,  têm certa razão uma vez que  o modelo econômico que organiza nossa sociedade já vem mostrando há anos,  sinais de exaustão. Entretanto, a capacidade humana de adaptações é interminável, e uma saída será encontrada para o modelo atual, já fracassado na Europa. Além do mais, na periferia do mundo, estamos em franco crescimento. 


Após anos de estagnação, agora começamos a sentir um pouco da inclusão social que tantos planos econômicos tentaram trazer. Tá certo que está de forma desordenada e sem acompanhamento de educação devida,  mas é melhor que a pobreza absoluta de outrora.  

Me pergunto: Será que é justo todo esse debate na Europa, só agora que o sistema os afeta? E na década de 80, momento em que toda Europa vivia um oásis econômico, e nós , os então Terceiro Mundistas, tínhamos que engolir um receituário recessivo imposto pelas organizações multilaterais.


Essa é uma longa história....A conversa  me lembrou os tempos de Inglaterra, onde estava inserto em um ambiente de muitos críticos do nosso sistema. 


Detalhe: Os alemães são impressionantemente idênticos em termos de  comportamento. Tem sempre aquele ar professoral, com certo tom de arrogância e ironia nos contra-argumentos, o que na verdade não é um mal em si,  mas sim o jeito que tem de debater sobre um assunto. Tive um professor alemão que tinha o mesmo comportamento. Impressionante!


Ótimo papo, no final das contas. Espero que ambos tenham uma boa jornada pela frente e grandes experiências mundo afora.  Só lamentei o fato que o nosso país seja visto como antro de violência pelos motociclistas de fora. Tá aí um tese interessante a se perseguir: Pq o Brasil é tão mais violento que os outros países da América Latina?  Só a pobreza não explica...


Bom...No final do dia, fiz a minha parada em dos hotéis mais clássicos que já me hospedei. O hotel chama-se La Alondra e fica em uma avenida um tanto depreciada de Corrientes.


Ao chegar ao hotel achei algo estranho. O que um hotel com um ambiente tão requintado, clássico e de bom gosto, estaria fazendo em uma cidade como Corrientes? Seria lavagem de dinheiro? Mais uma vez, é uma daquelas coisas que não se encaixam no ambiente. Lembram da ponte de Corrientes? Será que não percebi algo  ´up market´por lá? 

Talvez eu esteja subestimando a capacidade turística e empreendedora da ´megalópole´Corrientes.

O hotel é um verdadeiro espetáculo. A comida que prepararam é daquelas meio frescas onde até o tomate é cortado em forma de alguma coisa.


Ótima dica de hospedagem.


Abs! 

Hotel em que me hospedei: La Alondra
Opinião: Excelente

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